O que resta da Teologia da Libertação no Brasil?

 

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Um artigo em O Mundo das Religiões recordou a antiguidade do ramo progressivo da Igreja Católica Romana. As palavras aparentemente « revolucionárias » e iconoclastas do Papa Francisco, que em 2013 descreveu o capitalismo e a especulação como o « bezerro de ouro » faziam de facto parte de uma antiga tradição na América Latina: a da Teologia da Libertação. Não se pode compreender a influência desta corrente progressiva no Brasil sem a ligar à antropologia do país. No Brasil, certas actividades, certas formas de vida têm uma dimensão quase-religiosa. Este é o caso do futebol, por exemplo. A religião (cristã ou afro-brasileira) faz parte do estilo de vida brasileiro ou « pensamento antropológico » que transcende a dimensão religiosa por si só. Exprime uma fé holística transcendente, tanto religiosa como secular, e por isso aparece como um terreno fértil para a unidade da sociedade brasileira. Talvez a figura mais emblemática do movimento seja o Bispo dos Pobres, Dom Helder Camara. O PSOL (Partido Brasileiro de extrema-esquerda, do qual Marielle Franco era membro) num dos seus textos, recorda-nos a importância da religião para as classes trabalhadoras, especialmente as da « periferia ». Os CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), nascidos da teologia da libertação, trazem conforto espiritual e material aos mais desfavorecidos. Foi em 1971, no meio da Guerra Fria e do Plano Condor, que o padre dominicano peruano Francisco Gutiérrez trouxe à fonte baptismal a ideia de um ramo da Igreja ao serviço dos mais humildes, respeitando desta forma a ideia principal dos Evangelhos. Assim, a Teologia da Libertação é uma práxis que a faz ser comparada a um catolicismo marxista. O seu objectivo é tirar o esquecido da miséria que destrói almas e corpos, para que possam então ter a possibilidade de recuperar a dignidade que lhes permitirá consagrarem-se a Deus. A ajuda espiritual não pode passar sem ajuda material. O médico e geógrafo Josué de Castro, em 64, utilizou estas mesmas ideias para explicar na sua obra seminal « Geografia da Fome » a destruição da dignidade humana pela fome. Paulo Freire e a sua Pedagogia dos Esquecidos, na mesma ideia, mostraram que o analfabetismo era também um factor de opressão e alienação e que o aprendiz quebra as suas correntes. Enquanto a Igreja esteve historicamente com príncipes e opressores, com caudilhos latino-americanos na bota dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, esta corrente teológica iconoclasta, como as ordens mendicantes, opôs-se aos regimes em vigor, por vezes com armas na mão, como na Colômbia. Em Washington, D.C., ditaduras latino-americanas e líderes religiosos das igrejas nacionais tentaram « desarraigar o mal ». Monsenhor Romero, em El Salvador, foi assassinado por paramilitares. Mas a queda do muro e o anticonformismo de João Paulo II têm sido, desde os anos 90, a causa deste « movimento de libertação » social e religioso, contribuindo para o forte recuo da Igreja Católica no Brasil e para a ascensão das igrejas evangélicas, recuperando oportunisticamente um nicho abandonado.

 

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